Criança que muda as regras do jogo no meio da brincadeira: o que fazer

"Não vale, você não pode fazer isso, eu falei que agora o chão é lava!" Se você já ouviu crianças pequenas brincando por um tempo, sabe que as brincadeiras raramente ficam iguais por muito tempo. As regras mudam, poderes são inventados e o que conta como ganhar muda a cada minuto. A criança que muda as regras do jogo no meio da brincadeira pode provocar discussões barulhentas, mas isso também é uma janela para um dos aprendizados sociais mais importantes da primeira infância.

Reescrever regras faz parte de brincar

Para a criança pequena, inventar e mudar regras não é trapaça, é a própria brincadeira. O faz de conta e os jogos com regras são como elas experimentam justiça, poder e negociação. Uma criança anuncia uma reviravolta nova, a outra rebate, e entre as duas elas treinam como um grupo combina expectativas em comum. Visto assim, um tanto de mudança de regra é saudável e criativo, e as discussões que isso provoca são treino, e não prova de que algo está errado.

Por que isso termina tantas vezes em briga

O problema aparece porque as crianças pequenas mudam as regras por motivos diferentes, às vezes conflitantes. Uma pode estar acrescentando um floreio de imaginação, enquanto outra reescreve as regras de repente no instante em que está para perder. Some a isso o fato de que crianças dessa idade ainda têm dificuldade de enxergar o ponto de vista do outro e sentem injustiça rapidinho, e está pronta a receita da clássica crise no meio do jogo. Entender o motivo por trás da mudança de regra ajuda você a responder ao problema certo.

Pause e deixe que elas tentem primeiro

O seu instinto pode ser pular e apitar, mas resista no começo. Descobrir como lidar com um desentendimento é exatamente a habilidade que essa situação ensina. Dê às crianças um momento para negociarem sozinhas. Muitos choques de regra se resolvem com um rápido "tá, mas então eu ganho..." se os adultos não correrem para arbitrar. Rondar com o livro de regras na mão rouba das crianças um treino valioso de acordo.

Oriente a negociação quando empacar

Quando a discussão travar ou esquentar, entre para facilitar, e não para julgar. Alguns movimentos suaves ajudam as crianças a mudar as regras de um jeito mais justo:

  • Peça que cada criança diga o que quer: "O que você acha que deveria acontecer?"
  • Repita os dois lados para que cada uma se sinta ouvida.
  • Estimule um acordo: "Vocês conseguem achar um jeito de que as duas gostem?"
  • Sugira combinar as regras antes de jogar, ou antes de uma mudança valer.
  • Ofereça a ideia de revezar quem acrescenta uma regra nova.

A meta não é dar um veredito, e sim ensinar o processo. A criança que aprende a dizer "vamos combinar as regras primeiro" ou "a sua ideia, depois a minha" ganha uma ferramenta que pode usar muito depois que você se afastar.

Fale da justiça com delicadeza

As crianças têm um senso de justiça afiado, ainda que meio torto, e dá para construir em cima dele. Sem envergonhar ninguém, você pode pensar em voz alta: "É complicado quando a regra muda bem na hora em que alguém está para ganhar. Como a gente pode deixar justo para vocês dois?" Isso empurra as crianças para a ideia de que as regras devem funcionar para todos, e não só para quem está reescrevendo, que é a semente do jogo limpo de verdade.

Diferencie criatividade de controle

Existe uma diferença real entre uma criança que acrescenta uma reviravolta criativa de que as duas gostam e uma criança que muda as regras repetidas vezes para sempre ganhar ou dominar o amigo. A primeira é uma delícia e não precisa de correção. A segunda vale ser tratada com calma, porque o colega que nunca consegue ganhar nem influenciar a brincadeira vai se afastar. Aponte o padrão com carinho e oriente a flexibilidade de deixar os outros moldarem a brincadeira também.

Expectativas adequadas à idade

A capacidade de se colocar no lugar do outro e o controle dos impulsos ainda estão em construção nos primeiros anos, então a negociação justa vai e vem. A criança de quatro anos que fez um acordo lindo ontem pode sair batendo o pé hoje, principalmente cansada ou agitada demais. Procure um crescimento gradual, e não constância, comemore os momentos em que elas resolvem sozinhas e espere que as brincadeiras rápidas e emocionantes sejam onde as regras e a paciência mais se desfiam. Isso é normal.

Quando olhar um pouco mais de perto

As briguinhas por regras são uma parte comum e saudável da brincadeira. Pode valer uma conversa com o pediatra ou com a professora de referência da creche se a criança parecer completamente incapaz de tolerar qualquer mudança ou acordo em todos os ambientes, reagir a disputas comuns de jogo com uma angústia extrema ou agressiva que não melhora com apoio ou se a dificuldade vier junto com outras preocupações com a flexibilidade, a comunicação ou a convivência com outras crianças. Isso aponta para uma conversa de apoio e algumas ideias, e não para um problema com as discussões normais da infância.

Para levar com você

Com a criança que muda as regras do jogo no meio da brincadeira, lembre que inventar e renegociar regras faz parte de como as crianças aprendem justiça e cooperação. Deixe que elas tentem resolver primeiro, entre para facilitar, e não para julgar, quando empacarem, e ensine a linguagem do acordo e de combinar as regras antes. Diferencie as reviravoltas criativas do controle, mantenha as expectativas do tamanho da idade e trate as discussões como o campo de treino que elas realmente são.

Para guardar: Reescrever regras é como as crianças treinam a justiça. Deixe que elas negociem primeiro e depois oriente o acordo, em vez de dar um veredito.

American Academy of Pediatrics, The Power of Play

UNICEF, How play helps children learn and grow