Leitura de imagens: conversar sobre as figuras antes de ler o texto
Não existe regra que diga que um livro ilustrado precisa ser lido de uma vez, palavra por palavra, logo na primeira leitura. Na verdade, algumas das leituras mais ricas acontecem quando vocês desaceleram de vez e conversam sobre as figuras antes de ler o texto. Essa pequena mudança transforma o livro numa conversa e faz um bem surpreendente à criança.
Por que as figuras vêm primeiro
Num bom livro ilustrado, as ilustrações contam tanto da história quanto o texto, às vezes mais. Quando vocês param para olhar e conversar antes de ler, a criança estuda a cena, descobre quem é quem e o que pode estar acontecendo e traz as próprias ideias para a página. Esse pensamento é exatamente o tipo de envolvimento ativo que constrói a compreensão, muito mais do que ouvir as palavras passando por ela.
Para as crianças menores, que ainda acompanham pouco texto, as figuras são a história. Para as maiores, olhar primeiro desperta palpites e perguntas que fazem as palavras, quando vocês finalmente lerem, chegarem com mais sentido. De um jeito ou de outro, conversar sobre as figuras convida a criança a entrar.
Comece só olhando
Abra o livro e, em vez de mergulhar na primeira frase, simplesmente olhem juntos. Vocês podem reparar na capa, depois na primeira cena, e pensar em voz alta: "Nossa, quem é esse? Onde será que eles estão?" Dê tempo para a criança responder e trate o que ela disser como valioso. Não existe leitura errada de uma figura, e isso faz disso um jogo seguro, que dá confiança até para a criança tímida ou menor.
Siga o olhar da criança e o dedinho que aponta. Se ela se interessa pelo cachorro no canto, comece por ali. Você não está percorrendo a página como uma lista de tarefas; está batendo papo sobre o que vocês dois estão vendo.
Perguntas que abrem a conversa
Perguntas abertas fazem muito mais do que as de sim ou não. Algumas para ter no bolso:
- "O que você está vendo nesta página?"
- "O que você acha que está acontecendo aqui?"
- "Como você acha que ela está se sentindo? Como dá para saber?"
- "O que você acha que vai acontecer agora?"
Quando a criança responder, construa em cima. Se ela disser "ele tá triste", você pode acrescentar: "É, olha a boca dele virada para baixo. Talvez ele tenha perdido o ursinho." Esse jeito gentil de ampliar traz palavras novas e mostra à criança como transformar uma ideia solta num pensamento mais completo, sem nenhuma sensação de prova.
Depois, leiam e comparem
Depois de olhar e conversar, leia o texto. Agora as palavras têm uma força a mais, porque a criança já se envolveu com a figura. Ela pode comparar o que adivinhou com o que o autor escreveu: "Você achou que ele tinha perdido o ursinho. Vamos ver. Ah, ele perdeu o sapato." Acertar às vezes e se surpreender outras é delicioso para a criança e aprofunda a compreensão de como as histórias funcionam.
Você não precisa fazer isso em toda página nem em todo livro. Use principalmente com livros novos, muito ilustrados, ou numa página em que acontece muita coisa. Num favorito conhecido, a criança pode querer correr para as palavras que sabe de cor, e tudo bem também.
A criança lê as figuras de volta
Quando a criança estiver acostumada a olhar primeiro, passe o papel para ela. Peça que ela conte a história pelas figuras antes de você ler uma palavra. As crianças de 3 a 5 anos adoram ser quem "lê" para você, e isso desenvolve vocabulário, noção de sequência e confiança de uma vez só. A versão dela pode mudar a cada vez, e isso é qualidade, não defeito; cada reconto é a imaginação trabalhando.
O que costuma atrapalhar
Achar que precisa ler cada palavra, em ordem, imediatamente é a principal barreira. Não tem prêmio para quem termina mais rápido. Demorar numa figura não é atraso; é onde acontece muito do aprendizado.
Transformar tudo em interrogatório é a outra armadilha. Se cada página traz uma enxurrada de perguntas, a graça vai embora. Faça uma ou duas boas perguntas, deixe espaço para a criança pensar e mantenha o clima leve e curioso.
Quando buscar mais ajuda
Conversar sobre as figuras serve para quase todas as crianças e não exige nenhuma habilidade especial. Vale uma conversa com o pediatra se, de modo mais amplo, a criança raramente olha ou aponta para as figuras por volta dos dezoito meses a dois anos, não junta palavras por volta dos três anos ou não parece enxergar bem as figuras, por exemplo segurando o livro muito perto do rosto ou sem reparar nos detalhes. São referências gerais de linguagem e visão, oferecidas como lembretes gentis, e não alarmes.
Para levar com você
Para conversar sobre as figuras antes de ler o texto, desacelere, olhem juntos, faça uma ou duas perguntas abertas e deixe a criança adivinhar e ler as imagens de volta para você. Depois, leia o texto e comparem. Esse hábito pequeno transforma o livro de algo que você apresenta em algo que vocês exploram juntos, e constrói, sem alarde, o pensamento, a linguagem e o amor pelas histórias que formam um leitor confiante.
Para guardar: Pare para olhar e conversar sobre as figuras antes de ler o texto, faça uma ou duas perguntas abertas e deixe a criança adivinhar, para a leitura ficar ativa e rica.