Como fazer a criança se sentir ouvida, mesmo quando a resposta é não

Sentir que é ouvido é uma das necessidades humanas mais básicas, e ela começa surpreendentemente cedo. Muito antes de conseguir manter uma conversa de verdade, a criança percebe se os adultos em volta estão prestando atenção. A criança que se sente ouvida costuma ser mais calma, mais colaborativa e ter um apego mais seguro. A boa notícia é que isso quase não tem a ver com dizer sim, e tem tudo a ver com o jeito como você escuta.

Ser ouvida não é o mesmo que conseguir o que quer

A coisa mais libertadora para entender é que a criança não precisa que você concorde com ela para se sentir ouvida. Ela precisa que você a compreenda. Dá para negar o doce e ainda assim deixar a criança se sentindo completamente escutada. Fazer a criança se sentir ouvida é, no fundo, separar duas coisas que costumamos embolar: a resposta ao pedido e a sua reação ao sentimento dela sobre o pedido.

Pare e dê atenção de verdade

A criança sabe na hora se tem a sua atenção ou só a sua presença. Quando ela vier contar alguma coisa, tente pausar o que está fazendo, se virar para ela e olhar nos olhos, nem que seja por um instante. Se realmente não der para parar, diga com honestidade: "Quero muito ouvir isso, me dá um minuto para terminar e aí eu fico só com você." E depois volte. Esse pequeno gesto de voltar ensina à criança que as palavras dela valem a espera.

Devolva o que você ouviu

Uma das ferramentas mais simples e poderosas é repetir, com as suas palavras, o que a criança contou. Se ela chegar chateada porque o amigo não quis emprestar, você pode dizer: "Então o Davi estava com a bola e não deixou você ter a sua vez, e isso pareceu muito injusto." Você não está resolvendo. Está mostrando que acompanhou. Essa devolução está no centro de fazer a criança se sentir ouvida, porque prova que você estava escutando de verdade, e não só balançando a cabeça.

Deixe o sentimento existir antes de resolver

O instinto é pular para a solução ou para o consolo: "Deixa para lá, amanhã você brinca." Mas correr para resolver pode deixar a criança com a sensação de ter sido despachada. Tente primeiro dar nome ao sentimento e permitir que ele exista. "Você ficou muito decepcionado. Faz sentido." Só quando sente que a emoção foi recebida a criança costuma estar pronta para resolver o problema, e muitas vezes ela mesma resolve, depois que o sentimento encontra um lugar.

Pequenos hábitos que ajudam

Algumas práticas simples tornam o ser ouvida parte da vida comum.

  • Abaixe até a altura dela, para não escutar lá de cima.
  • Use pequenos incentivos: "hum", "e aí?", "me conta mais".
  • Evite terminar as frases dela ou apressar a história.
  • Resista a corrigir os detalhes enquanto ela ainda está contando.
  • Vire o celular para baixo quando ela estiver falando com você.

Quando você precisa dizer não

Muitas vezes você vai precisar frustrar a criança, e dá para fazer isso deixando que ela se sinta ouvida. O segredo é reconhecer o desejo antes de dar a resposta. "Você queria muito ficar mais no parquinho. Aqui é tão divertido. E agora está na hora de ir para casa jantar." O limite é claro e firme. O sentimento por trás dele foi bem recebido mesmo assim. A criança lida muito melhor com o não quando a vontade foi entendida primeiro.

Repare no que o comportamento está dizendo

A criança bem pequena muitas vezes fala mais pelo comportamento do que pelas palavras. Uma manhã de grude, uma explosão repentina ou um desequilíbrio na hora de dormir podem ser um recado. Parte de fazer a criança se sentir ouvida é tratar o comportamento como comunicação, e não só como algo a interromper. "Você está batendo na parede sem parar. Acho que alguma coisa está incomodando você. Estou aqui" abre uma porta que uma bronca fecharia com força. Você pode não decifrar tudo, e tudo bem. O que importa é a escuta em si.

Quando escutar não basta

Na maior parte do tempo, se sentir ouvida é exatamente do que a criança precisa. De vez em quando, porém, ela pode estar contando, com palavras ou com o comportamento, algo que pede mais apoio. Se a criança parece triste, com medo ou fechada de forma persistente, conta que alguém a machucou ou assustou ou mostra uma mudança duradoura no humor, na alimentação ou no sono, leve a sério. Agradeça por ela ter contado, mantenha a calma e converse com o pediatra ou com a creche ou escola. A criança que se sente ouvida tem muito mais chance de procurar você quando algo estiver errado de verdade.

Por que vale o esforço

Nem sempre você vai ter paciência para escutar bem, e nenhum pai ou mãe faz isso com perfeição. Mas o que conta é o padrão. A criança que cresce se sentindo ouvida com regularidade aprende que a voz dela importa, que os sentimentos dela estão seguros com você e que pode trazer qualquer coisa. Essa base sustenta a confiança, a saúde emocional e a relação de vocês por muitos anos, e é construída com a escolha simples, todos os dias, de escutar de verdade.

Para guardar: A criança precisa se sentir compreendida, e não obedecida; escute por inteiro e devolva o sentimento antes de resolver ou negar, e a conexão se mantém mesmo quando a resposta é não.

NHS, Children and young people's mental health: advice for parents

UNICEF, How to talk to your children