Como ensinar a criança a proteger o próprio corpo sem assustar

Falar sobre a proteção do corpo com uma criança pequena pode parecer constrangedor, e muitos pais e mães têm medo de assustar ou de trazer o assunto cedo demais. Mas esse ensino, feito com delicadeza e misturado ao dia a dia, é só mais uma parte de manter a criança segura, assim como ensinar sobre a rua ou o forno quente. A boa notícia é que dá para passar essas regras de um jeito carinhoso, calmo e natural, que traz confiança e não medo.

Comece pelo dia a dia, não por uma grande conversa

A proteção do corpo não é uma conversa séria única, e sim uma série de momentos pequenos e comuns espalhados ao longo de meses e anos. Dá para encaixar o assunto na hora do banho, de trocar de roupa, de trocar a fralda e nas conversas do dia a dia. Mantendo o tom leve e normal, igual ao que você usa para ensinar qualquer outra regra, a criança absorve a mensagem sem susto. Esse jeito cotidiano é o mais eficaz, porque para a criança tudo parece seguro e natural.

Use os nomes certos das partes do corpo

Ensinar os nomes corretos das partes do corpo, inclusive das partes íntimas, é um passo simples e poderoso de proteção. Quando a criança sabe nomear o corpo com precisão, consegue contar com clareza a um adulto se algo está errado ou se alguém a machucou ou tocou, e as orientações baseadas em pesquisa incentivam essa abertura. Usar os nomes certos também mostra que nenhuma parte do corpo é vergonhosa ou secreta, o que facilita a criança falar. Diga essas palavras do mesmo jeito neutro com que você nomeia o cotovelo ou o joelho, sem constrangimento nenhum.

Explique o que são partes íntimas e privacidade

Quando a criança já sabe os nomes, você pode explicar com calma que as partes íntimas são as que a cueca, a calcinha ou o maiô cobrem. A mensagem é simples: essas partes são íntimas, pertencem à criança, e outras pessoas não devem olhar nem tocar, a não ser para manter limpo e saudável, como um responsável ajudando no banho ou um médico examinando com um adulto de confiança junto. Falar disso de forma positiva, a partir da ideia de que o corpo é da criança, ajuda muito mais do que uma lista de avisos assustadores.

Ensine consentimento na vida real

O consentimento começa muito antes de ganhar nome, nas escolhas do dia a dia. Deixe a criança decidir sobre o próprio corpo quando for seguro, como escolher se dá um abraço, um tchau ou um “toca aqui” num parente, em vez de ser obrigada a abraçar ou beijar alguém. Respeitar o “não” dela nas cócegas ou nas brincadeiras de rolar, e parar quando ela pede, ensina que o que ela sente sobre o próprio corpo importa. Isso ajuda a entender que ela pode dizer não a um toque que não quer e que um adulto que cuida vai escutar. Colocar o consentimento nos momentos comuns é um jeito natural de construir essas regras.

A ideia de adultos de confiança

Em vez de ensinar a criança a ter medo de estranhos, o que assusta e nem é muito preciso, já que a maior parte das violências vem de pessoas que a criança conhece, é mais útil construir a ideia de adultos de confiança. Ajude a criança a escolher algumas pessoas a quem ela sempre pode recorrer quando se sentir preocupada, insegura ou confusa, como um responsável, um avô ou uma avó, ou alguém da creche. Garanta que ela pode contar qualquer coisa a um adulto de confiança, que não vai levar bronca por contar e que você sempre vai escutar e ajudar. Isso dá à criança um caminho claro para falar.

Segredos, sentimentos e coragem para contar

Mais duas ideias suaves completam o quadro. Ensine a diferença entre uma surpresa boa, como um presente de aniversário, que é divertida e logo vai ser revelada, e um segredo que alguém diz que precisa ser guardado para sempre ou que deixa a criança desconfortável, que deve sempre ser contado a um adulto de confiança. E ajude a criança a reparar no que sente, para que, se algo deixar ela preocupada, com medo ou com aquela sensação de “eca”, ela saiba que pode confiar nesse sentimento e contar a alguém. Diga a ela, com carinho e muitas vezes, que ela sempre pode vir até você.

Com calma e do tamanho da idade

Em tudo isso, o tom importa tanto quanto o conteúdo. Mantenha o rosto e a voz tranquilos, responda às perguntas de forma simples e honesta, no nível da criança, e não ofereça mais detalhes do que ela pediu. Repita as mensagens em pequenas doses ao longo do tempo, em vez de despejar tudo de uma vez. Elogie a criança por perguntar e por contar coisas a você. A ideia não é deixar a criança desconfiada do mundo, e sim dar a ela as palavras, a permissão e a confiança para falar.

Quando buscar apoio

Se a criança contar algo que preocupe você, mantenha a calma, escute sem pressionar por detalhes, diga que ela fez a coisa certa ao contar e que não está encrencada, e não prometa guardar segredo. Depois, procure orientação do pediatra, do Conselho Tutelar ou do Disque 100, o canal nacional de denúncias de violações de direitos, sobre o que fazer em seguida. Repare também em mudanças repentinas e sem explicação no comportamento, lembrando que elas têm muitas causas comuns. Sempre que a segurança de uma criança preocupar você, o certo é pedir orientação profissional, e não carregar isso sem apoio.

Para guardar: Ensine com delicadeza e muitas vezes: nomes certos, partes íntimas, consentimento no dia a dia e adultos de confiança, para a criança se sentir segura para falar, e não com medo.

AAP HealthyChildren, Talking to Children About Body Safety

UNICEF, Parenting: How to keep your child safe