Falar menos para a criança escutar: o que fazer quando ela não ouve
Quando a criança desliga, o nosso instinto é falar mais. A gente explica, argumenta, lembra, acrescenta só mais um ponto. Só que, com crianças pequenas, a enxurrada de palavras muitas vezes é o problema, e não a solução. Usar menos palavras quando a criança não está escutando parece contraditório, mas é uma das mudanças mais eficientes que uma mãe ou um pai pode fazer.
Por que mais palavras saem pela culatra
O cérebro de uma criança pequena processa a linguagem devagar e guarda pouca coisa de cada vez. Quando você empilha explicações e lembretes, a mensagem principal se afoga. A criança pega pedaços, perde o fio e acaba não fazendo nada. O que para você parece capricho, para ela soa como barulho.
Existe também o efeito de desligar. A criança que ouve discursos longos, principalmente num tom irritado, aprende a deixar o som passar por cima. Quanto mais você fala, mais treinada ela fica em não escutar. Enxugar as palavras quebra esse hábito e dá à parte importante um lugar para chegar.
Comece pela palavra principal
Uma das técnicas mais simples é reduzir o pedido à essência, às vezes uma ou duas palavras. Em vez de "Já pedi três vezes, por favor, vai calçar o sapato porque a gente precisa sair agora", experimente "Sapato." Dita com calma, de perto, olhando nos olhos, essa única palavra carrega a mensagem inteira sem a bagunça em volta.
Isso não é ser seco ou frio. Um lembrete curto e carinhoso respeita que a criança só consegue guardar um tanto, e facilita a colaboração ao tirar tudo aquilo que ela teria de atravessar. Falar menos quando a criança não escuta é um gesto de gentileza, e não latir ordens.
Deixe a sua presença falar
Palavras são só uma parte da comunicação, e muitas vezes a mais fraca quando a criança parou de escutar. Chegar perto, abaixar na altura dela e olhar nos olhos com delicadeza diz "isso importa" antes de você abrir a boca. A mão estendida, um dedo apontando para o sapato ou um toque leve no ombro podem levar um pedido quase sem palavra nenhuma.
Experimente fazer o pedido e simplesmente esperar, presente e na expectativa, em vez de encher o silêncio com mais conversa. Essa pausa quieta dá tempo para a criança processar e, muitas vezes, atender, enquanto mais uma frase só zeraria o relógio.
Troque frases por gestos e sinais
Crianças pequenas respondem muito a sinais visuais e físicos. Apontar, mostrar o objeto, imitar a ação ou usar um sinal conhecido pode substituir frases inteiras. Mostrar o casaco e levantar as sobrancelhas diz "casaco" na hora. Um gesto em direção ao banheiro na hora de escovar os dentes dispensa qualquer fala.
Lembretes visuais seguem a mesma ideia. Um quadro simples de rotina com figuras na parede deixa você tocar na figura do "sapato" em vez de repetir o pedido, e a criança lê o que fazer em vez de desligar da sua voz.
Explicações ficam para os momentos calmos
Crianças precisam de motivos e de conversa, sim, mas o meio de uma queda de braço não é a hora. Quando a criança está empacada e não escuta, mais argumento raramente chega e muitas vezes alimenta a discussão. Faça o pedido curto agora e deixe a conversa sobre por que a gente sai no horário ou por que tratamos o gato com carinho para um momento calmo e de conexão, mais tarde, quando ela conseguir absorver.
Essa separação mantém a temperatura baixa. Menos palavras quando a tensão está alta significam menos chances de a conversa virar briga.
Poucas palavras com ação
Palavras curtas funcionam melhor junto com uma ação calma. Diga a palavra principal uma vez, espere e, se nada acontecer, ajude a acontecer, em vez de partir para uma versão mais longa. Ir até a criança e guiar com delicadeza até a tarefa ensina que o seu pedido curto vale o que diz. Voltar a encher de palavras desfaz o efeito.
Perceba e reconheça com carinho quando funcionar. "Você escutou de primeira." Respostas de primeira que ganham a sua atenção crescem, e com o tempo você consegue contar cada vez mais com o jeito quieto e breve.
Com carinho
Usar menos palavras tem a ver com clareza, e não com frieza. O seu tom deve continuar carinhoso e calmo, e sempre há espaço para colo, conversa e explicação em outros momentos do dia. Mas naquele momento específico em que a criança parou de escutar, enxugar as palavras deixa a mensagem passar. Junte o lembrete curto a um sorriso ou a uma mão delicada e ele chega como cuidado, e não como ordem.
Quando a escuta é uma preocupação maior
Desligar de vez em quando é completamente normal. Se, mesmo com lembretes curtos, atenção e ação calma, a criança com muita frequência parece não ouvir você, não percebe sons do dia a dia e o próprio nome, demora a desenvolver uma fala clara ou teve muitas otites, comente com o pediatra. A otite serosa e outras dificuldades de audição são comuns e passam despercebidas com facilidade, e um exame simples de audição pode descartar isso. Uma dificuldade marcante e persistente de prestar atenção em lugares diferentes também merece ser levada ao pediatra, para tranquilidade ou apoio.
Para a maioria das crianças, porém, a mudança é imediata e um alívio. Troque a enxurrada de palavras por um sinal claro, dito de perto, com calma e uma vez só, e veja como a criança passa a escutar muito mais.
Para guardar: Quando a criança desligar, reduza as palavras a um sinal claro, dito de perto e com calma, e deixe um gesto ou a sua presença fazer o resto.