Não sei desenhar: como brincar de arte com a criança mesmo assim

Muitos pais e mães travam com a ideia de fazer arte com a criança porque não conseguem desenhar um cachorro convincente. Se é o seu caso, aqui vai a verdade tranquilizadora: a brincadeira de arte com crianças pequenas quase não tem a ver com a sua habilidade. A criança não está procurando um adulto talentoso. Ela procura permissão, alguns materiais e alguém que mantenha o interesse enquanto ela explora.

A criança não está avaliando o seu desenho

Quando a criança pede para você desenhar um gato e sai uma bolota tremida, ela costuma ficar encantada. Nessa idade, o que importa é o momento junto, não a precisão. A pressão que você sente é coisa de adulto, herdada de anos de notas e comparações. A criança ainda não tem nada disso. Abrir mão da ideia de que você precisa se apresentar deixa você livre para simplesmente estar ali, que é o que de fato importa para ela.

O processo, não o desenho

A mudança que mais ajuda é se importar com o que a criança está fazendo, e não com o que ela produz. Essa abordagem, muitas vezes chamada de arte de processo, valoriza o amassar, misturar, rabiscar e colar por si mesmos. Você não precisa conduzir nada disso a um resultado reconhecível. Quando o centro é a experiência, a sua falta de jeito para desenhar fica totalmente irrelevante, porque não existe imagem final para ninguém admirar.

Prepare e dê um passo para trás

Boa parte da arte que dá para oferecer funciona melhor quando o seu trabalho principal é preparar, e não se apresentar. Coloque papel e giz, ou uma bandeja de massinha, ou tinta e uma esponja, e deixe a criança assumir. Você pode sentar ao lado, comentar o que repara e passar a próxima cor. Você é a presença calma e quem fornece o material, não quem ensina. Esse papel serve para qualquer pessoa, artista ou não.

Materiais que fazem a parte criativa por você

Alguns materiais fazem o trabalho interessante sozinhos, e você não precisa fazer. Carimbos criam padrões sem nenhum desenho. Adesivos montam figuras sem habilidade alguma. Plástico bolha passado na tinta carimba textura. Massinha convida a amassar e enrolar. Elementos da natureza viram formas no chão. Escolher esses materiais abertos garante que a atividade seja envolvente, saiba você desenhar ou não.

Coisas boas para dizer sem elogio falso

Você não precisa de vocabulário de arte para conversar com a criança enquanto ela cria. Descrever o que você vê funciona melhor do que elogios vazios, de qualquer forma. Você pode reparar que ela usou muito azul, que apertou bem forte ou que fez a mesma forma três vezes. Esse tipo de comentário dá vontade de continuar e mostra que você está prestando atenção. E ainda evita o constrangimento de fingir que um rabisco é uma grande obra.

Deixe a criança ensinar você

Passar a liderança pode transformar a sua falta de confiança num presente. Peça para a criança mostrar como ela fez alguma coisa, ou para escolher as cores dos dois. Quando você segue as instruções dela em vez de definir o roteiro, ela se sente capaz e você fica menos em evidência. Muitos pais descobrem que é aí que começa a diversão de verdade, porque ninguém está se apresentando e os dois estão só brincando.

Pouco e fácil de repetir

Você não precisa de projetos elaborados de rede social. Na verdade, quanto mais complicado o plano, menor a chance de ele acontecer, e maior a chance de você sentir que fracassou. Uma bandeja, dez minutos e um ou dois materiais bastam. Repetir a mesma montagem fácil é bom de verdade para a criança, porque a familiaridade deixa que ela se aprofunde. Pouco esforço da sua parte não é uma concessão aqui. Muitas vezes é a melhor escolha.

Uma palavra sobre comparação

As redes sociais estão cheias de mesas de artesanato impossivelmente arrumadas e pinturas infantis lindamente acabadas. A maioria é montada ou tem mão de adulto. Comparar a sua hora da arte comum e um pouco caótica com uma foto produzida é o caminho mais rápido para se sentir insuficiente. A criança ganha muito mais com a sua companhia real e sem retoque do que com qualquer montagem perfeita. Silenciar a comparação ajuda você a curtir o que é, na verdade, uma parte muito possível da vida com filhos.

Quando algo parece fora do lugar

A arte em si não traz riscos de saúde além dos cuidados de sempre: materiais atóxicos e laváveis, peças pequenas longe de quem ainda leva coisas à boca e um adulto por perto. No lado emocional, se a criança parece sempre desinteressada de qualquer brincadeira, evita toda atividade com as mãos ou com sujeira a ponto de atrapalhar o dia a dia, ou perdeu habilidades que já tinha, vale conversar com o pediatra. Uma recusa de vez em quando é normal; uma mudança marcante e duradoura merece ser comentada.

Repensando o que você oferece

O valor duradouro dessa brincadeira não é um portfólio de desenhos bonitos. É uma criança que aprende que as ideias dela merecem ser expressas e que tentar importa mais do que acertar. Você mostra isso cada vez que desenha, de bom humor, uma casa torta ou deixa a criança encher você de adesivos. A sua disposição de participar, do jeito imperfeito que for, ensina exatamente a confiança criativa que você tinha medo de não conseguir passar.

Para guardar: A brincadeira criativa depende da sua presença e de alguns materiais abertos, não da sua habilidade de desenhar: foque no processo da criança e curta junto.

AAP HealthyChildren, The power of play

UNICEF, Learning through play