Como valorizar as perguntas da criança, e não só a resposta certa
Pense no que costuma render um "muito bem" para uma criança. Acertar a resposta, dizer o nome da cor, contar direitinho, saber a capital do estado. A gente celebra respostas certas quase sem perceber. Mas a criança vira mais daquilo que a gente elogia e, se só as respostas certas ganham festa, ensinamos sem querer que perguntas valem menos do que saber. Aprender a elogiar uma boa pergunta, e não só a resposta certa, muda esse equilíbrio e mantém a curiosidade da criança viva.
Por que as perguntas merecem o elogio
Uma boa pergunta muitas vezes é mais difícil e mais valiosa do que uma resposta certa. Respostas fecham; perguntas abrem. Quando a criança pergunta algo pensado, ela percebeu uma lacuna no que entende e se esticou para alcançar, e esse é exatamente o hábito mental que move todo aprendizado. Ainda assim, perguntas quase nunca ganham um "muito bem", enquanto respostas sempre ganham. Corrigir isso mostra à criança que se perguntar as coisas é valorizado, e não só saber.
Como é uma pergunta digna de elogio
Você não precisa guardar o elogio para perguntas espertas ou avançadas. Quase toda pergunta sincera merece incentivo, mas alguns tipos valem ser destacados.
- Perguntas que reparam em algo que os outros não viram: "Por que a lua muda de forma?"
- Perguntas que ligam duas coisas: "A baleia é um peixe ou um bicho igual à gente?"
- Perguntas que vão além: "Mas o que acontece depois disso?"
- Perguntas honestas que admitem não saber: "Eu não entendi, por que é assim?"
Quando você elogia a boa pergunta, e não só a resposta certa, está premiando o reparar e o se esticar, o que importa muito mais do que a criança já saber responder.
Diga o que ela teve de bom
Elogio vago some. Elogio específico ensina. Em vez de um "boa pergunta" sem graça, conte à criança o que fez a pergunta ser boa.
- "Que pergunta caprichada, você reparou numa coisa por onde eu passei direto."
- "Que coisa esperta de se perguntar, ela junta duas ideias."
- "Adorei que você perguntou, porque eu também não sei, e agora a gente pode descobrir."
Dar nome à qualidade ajuda a criança a entender o que faz uma pergunta valer a pena, e ela aprende a fazer mais perguntas assim.
Não deixe a resposta apagar a pergunta
Uma armadilha comum é elogiar a pergunta e correr direto para responder, e a resposta vira o evento principal. Experimente ficar um pouco na pergunta primeiro. Você pode dizer "Que coisa boa de se perguntar. Vamos pensar nisso" antes de oferecer qualquer coisa. Ficar um instante com a pergunta, valorizando a pergunta por si só, mostra à criança que perguntar importou, e não só a resposta que veio depois. Às vezes dá até para deixar uma ótima pergunta no ar de propósito, elogiada e sem resposta, para investigar mais tarde.
Com honestidade sobre as respostas
Elogiar perguntas não quer dizer fingir que toda resposta está certa ou que acertar nunca importa. Importa, claro; fatos são reais e úteis. A ideia é equilíbrio, e não trocar um hábito torto por outro. Dá para corrigir uma resposta errada com delicadeza e ainda assim elogiar com carinho o raciocínio ou a pergunta por trás dela. "Você se esforçou muito nessa, e olha aqui a parte para olhar de novo" honra o esforço sem abandonar a precisão.
Repare nos momentos do dia a dia
As chances de elogiar perguntas aparecem o tempo todo quando você presta atenção, muitas vezes de passagem.
- No carro, quando uma curiosidade aleatória escapa.
- Num livro, quando a criança pergunta sobre um personagem ou uma figura.
- Num passeio, quando algo lá fora chama a atenção dela.
- No jantar, quando um pensamento curioso aparece do nada.
Pegar essas perguntinhas e dar a elas um "que coisa boa de perguntar", carinhoso e específico, forma uma criança que continua perguntando, porque perguntar ficou gostoso.
Por que isso protege a curiosidade a longo prazo
As crianças chegam à escola cheias de perguntas e, de forma preocupante, muitas perguntam cada vez menos com o passar dos anos. Parte disso é a vontade natural de se encaixar, mas parte é um sistema que premia muito mais as respostas certas do que as boas perguntas. Uma casa onde as perguntas são celebradas de verdade nada contra essa corrente. A criança que aprendeu que as perguntas dela têm lugar e são valorizadas tem mais chance de continuar perguntando nos anos em que isso sai de moda, e isso protege o aprendizado dela por muito tempo.
Uma observação delicada
A curiosidade varia naturalmente entre as crianças, e uma criança mais quieta, que pergunta menos, não é menos inteligente. Mas, se a criança quase nunca faz perguntas, tem dificuldade de entender perguntas simples ou se você tem preocupações com a linguagem ou a audição dela, vale comentar com o pediatra para que um apoio possa começar cedo. Para a maioria das crianças, as perguntas florescem simplesmente quando são notadas e recebidas com carinho.
Para levar com você
A gente molda os filhos por aquilo que celebra. Se só as respostas certas ganham elogio, a curiosidade murcha sem barulho; se as boas perguntas ganham também, a curiosidade floresce. Elogie a boa pergunta, e não só a resposta certa, diga exatamente o que ela teve de bom, fique um pouco na pergunta antes de correr para responder e continue pegando as curiosidades do dia a dia. Assim a criança aprende que perguntar vale tanto quanto saber, e continua curiosa por muitos anos.
Para guardar: A criança faz mais daquilo que a gente elogia. Celebre as boas perguntas de forma específica, e não só as respostas certas, e fique um pouco na curiosidade antes de correr para responder.