Escuta ativa com os filhos: como ouvir para a criança se sentir ouvida
Quase todo mundo acha que escuta os filhos. Ouvimos as palavras, respondemos à pergunta, resolvemos o problema. Mesmo assim, a criança pode passar o dia falando com um adulto ocupado e cheio de boa vontade e não se sentir ouvida. A diferença é sutil, mas enorme. A escuta ativa com os filhos não tem a ver com os seus ouvidos funcionarem. Tem a ver com a criança sentir, no corpo, que você recebeu de verdade o que ela tentava dizer.
Por que se sentir ouvida importa tanto
Quando a criança se sente realmente escutada, várias coisas boas acontecem ao mesmo tempo. Ela se sente valorizada, e isso fortalece a autoestima. Aprende que o que sente por dentro faz sentido e pode ser dividido, e isso desenvolve a compreensão das emoções. E se acalma, porque um sentimento que tem testemunha perde boa parte da força. Crianças que se sentem ouvidas também colaboram com mais facilidade, porque não ficam presas tentando chamar a sua atenção com recursos cada vez maiores e mais barulhentos. Escutar não é moleza nem permissividade. É uma das ferramentas mais práticas que você tem.
Pare, vire e esteja ali
O primeiro gesto da escuta de verdade é físico. A criança sabe a diferença entre o adulto que solta um "hum" por cima do ombro e aquele que para, se vira e oferece o rosto. Você não precisa largar tudo toda vez, mas, quando importa, deixe o celular de lado, fique na altura dela e deixe o seu corpo dizer "estou aqui". Essa presença simples e inteira muitas vezes comunica mais do que qualquer resposta esperta. Estar ali por inteiro por trinta segundos vale mais do que estar pela metade por dez minutos.
Segure a vontade de resolver
Esta é a armadilha que mais pega pais amorosos e competentes. A criança conta um problema e a gente pula direto para a solução. "É só falar com a professora." "Então brinca com outra pessoa." O conselho pode até ser bom, mas pode deixar a criança com a sensação de não ter sido ouvida, porque o que ela queria primeiro era ser compreendida, e não administrada. Tente guardar as soluções. Muitas vezes a criança não precisa que você conserte o sentimento. Precisa que você fique com ela dentro dele por um instante. Depois de se sentir compreendida, ela costuma encontrar o próprio caminho.
Devolva o que você ouviu
Um dos jeitos mais certeiros de praticar a escuta ativa é simplesmente repetir o que você entendeu. "Então você estava superanimado para ser o primeiro, aí a vez foi para outra criança, e isso pareceu injusto." Isso faz três coisas: prova que você estava prestando atenção, ajuda a criança a se sentir menos sozinha e dá palavras para o que ela viveu. Você não precisa concordar com todas as conclusões. Está mostrando que os sentimentos dela fazem sentido para você, que é o que ela mais quer saber.
Os pequenos hábitos que fecham a criança
Alguns reflexos dizem à criança, sem alarde, que as palavras dela não estão seguras com você. Perceber esses hábitos já faz uma diferença real:
- Desconsiderar: "Você está bem, não foi nada."
- Diminuir: "Não precisa chorar por isso."
- Apressar: terminar as frases dela ou ficar mandando ir direto ao ponto.
- Interrogar: disparar perguntas em vez de deixar que ela conduza.
- Puxar para você: sequestrar a história com a sua própria versão.
Nenhum desses hábitos vem de um coração ruim. Costumam vir da pressa, do cansaço ou da vontade de ajudar. Perceber que eles existem é o primeiro passo para suavizar.
Deixe existir pausas
As crianças, principalmente as menores, precisam de tempo para achar as palavras. O silêncio pode incomodar o adulto, e a gente tende a preencher esse vazio. Tente deixar a pausa respirar. Quando você resiste a entrar na conversa, dá espaço para a criança dizer a coisa verdadeira, que muitas vezes vem depois da primeira, a mais segura. Paciência também é uma forma de escuta. Algumas das confidências mais importantes só aparecem depois de um silêncio longo e sem pressa que você escolheu não quebrar.
Acolha o sentimento, mesmo mantendo o limite
Escutar bem não é concordar com tudo nem tirar todos os limites. Dá para ouvir um sentimento por inteiro e manter a regra. "Você queria muito mais tempo de tela e ficou com raiva porque desligou. Faz sentido. Mesmo assim, agora é hora de dormir." A criança se sente ouvida sobre a emoção, mesmo que a resposta seja não. Essa combinação, compreensão calorosa mais um limite tranquilo, é onde a conexão e o bom comportamento se encontram.
Quando a criança tem dificuldade de ser ouvida por qualquer pessoa
Escutar costuma bastar, mas fique de olho em padrões maiores. Se a criança quase não se comunica, parece triste, ansiosa ou com raiva de forma persistente apesar dos seus esforços para ouvir, perdeu habilidades de fala ou de convivência que já tinha, ou se algo que ela contou levanta uma preocupação séria com a segurança dela, converse com um profissional. O pediatra ou a escola podem ajudar. Pedir orientação não é admitir que você escutou mal. Faz parte de escutar bem o que a criança precisa.
Uma habilidade que vale treinar
Ninguém escuta com perfeição, e você ainda vai interromper, resolver e apressar de vez em quando. Tudo bem. A criança não precisa de um ouvinte impecável. Precisa de um adulto que, na maior parte das vezes, para e acolhe por inteiro o que ela traz, e que repara quando escorrega. Cada vez que você escuta assim, ensina algo que ela vai levar para a vida: que a voz dela importa e que ela merece ser ouvida.
Para guardar: Escutar de verdade é parar e estar presente, guardar as soluções e devolver o sentimento, para que a criança saiba que foi recebida de verdade.