Desenho de memória ou de observação: o que muda no desenho infantil

Peça para uma criança pequena desenhar um gato e quase sempre sai o gato que mora na cabeça dela: um círculo, umas pernas, duas orelhas de triângulo, igualzinho a todos os gatos que ela já desenhou. Agora coloque um gato de verdade, ou a foto de um, na frente dela, e algo interessante pode acontecer. A diferença entre desenhar de memória e desenhar observando é uma janela linda para o pensamento infantil, e entender isso ajuda você a apoiar a arte da criança sem empurrar.

O que é desenhar de memória

Quase todo desenho da primeira infância vem da memória, ou melhor, de um símbolo que a criança guardou para cada coisa. A casa de uma criança de 4 anos tem telhado de triângulo e janela com quatro quadradinhos, pareça ou não com a casa onde ela mora. Esses símbolos são práticos e satisfatórios: com eles a criança faz surgir uma pessoa, um sol ou um cachorro quando quer. O desenho de memória mostra o que a criança sabe e acha importante sobre um objeto, o que muitas vezes é bem diferente de como ele é de fato.

O que é desenhar observando

Desenhar por observação é olhar de perto para algo real e tentar registrar o que os olhos enxergam, e não o símbolo guardado. É outra tarefa mental: pede que a criança repare no rabo comprido ou na orelha dobrada deste gato, e não no "gato" em geral. Crianças bem pequenas raramente fazem isso por conta própria, e isso é totalmente normal. O desenho de observação costuma aparecer mais tarde e de forma irregular; é uma habilidade que cresce com o amadurecimento e com prática leve, e não algo a esperar cedo.

As duas formas têm valor

Nenhum dos dois jeitos é melhor, e a criança ganha com ambos. Desenhar de memória desenvolve imaginação, narrativa e a capacidade de representar ideias, que contam muito para o pensamento criativo. Desenhar observando afia a atenção, a paciência e o hábito de olhar de verdade, que alimentam a curiosidade e, mais adiante, uma arte mais detalhada. Uma infância criativa e completa deixa a criança passear livremente entre o que imagina e o que vê.

Sem pressa para a observação

Depois que a gente descobre o desenho de observação, bate a vontade de corrigir os desenhos simbólicos da criança para que fiquem mais realistas. Resista, por favor. O sol com carinha sorridente de uma criança de 3 a 5 anos é exatamente o esperado para a idade e é precioso, não um erro a consertar. Cobrar realismo cedo demais pode fazer a criança sentir que o jeito natural dela de desenhar está errado e abalar a confiança. A observação é um convite que você faz de vez em quando, nunca uma régua para medir os desenhos imaginativos.

Jeitos leves de convidar a olhar

Quando a criança estiver pronta e interessada, dá para abrir essa porta brincando. Coloque um único objeto simples na mesa, uma folha, uma fruta, um brinquedo querido, e desenhem juntos, pensando em voz alta: "Quantas pontas será que essa folha tem?" Mantenha leve e curto. Desenhar o cachorro da casa, uma flor do jardim ou a vista da janela transforma o olhar num jogo. O objetivo é reparar e curtir, não fazer uma cópia exata.

Conte o que você repara

A linguagem ajuda muito a observação. Enquanto olham juntos para um objeto, descreva o que ele tem de verdade: "Essa maçã não é só redonda, aqui ela é meio ondulada, e lá em cima tem um buraquinho." Apontar detalhes que a criança deixaria passar treina o hábito de olhar com calma, sem nenhuma cobrança sobre o desenho em si. Mesmo que o desenho continue simbólico, a conversa amplia a atenção e o vocabulário, que já valem por si.

As duas formas podem conviver

A criança transita entre memória e observação com naturalidade, às vezes no mesmo desenho. Ao desenhar a família, ela usa o boneco de sempre e, de repente, coloca os óculos do pai porque levantou os olhos e reparou neles. Comemore esses lampejos de observação quando aparecerem, sem pedir mais. Com os anos, principalmente na fase escolar, a observação ganha espaço naturalmente, mas o desenho imaginativo, de memória, nunca perde o valor. Os dois servem para a vida toda.

As habilidades que estão por trás

O desenho de observação se apoia em habilidades que amadurecem com o tempo: atenção sustentada, capacidade de comparar o que está no papel com o que está à frente e coordenação motora fina. Isso não se desenvolve com exercícios de desenho, e sim com brincadeira rica e sem pressa, com olhares atentos para o mundo nos passeios e com muita arte descontraída. A criança que é convidada com frequência a reparar, comparar e descrever está construindo essa base, seja qual for a cara dos desenhos hoje.

Quando pensar em apoio extra

O estilo de desenho raramente é assunto de saúde, e preferir o desenho simbólico, de memória, é totalmente normal em toda a primeira infância. Pode valer uma conversa com o pediatra ou com a professora da escolinha se você tiver preocupações mais amplas: se a criança tem muita dificuldade de se concentrar em qualquer atividade para a idade, acha todas as tarefas de coordenação fina muito difíceis ou não entra nunca em brincadeiras de faz de conta. Essas questões dizem respeito ao desenvolvimento como um todo, não a desenhar de memória ou da vida real.

Aproveite as duas pontas

O melhor que você pode fazer é acolher os dois tipos de desenho sem colocar um acima do outro. Curta os mundos que a criança tira da cabeça e, de vez em quando, ofereça uma folha de verdade, o bichinho de estimação ou uma fruta como convite para olhar de perto. Mantenha a brincadeira, siga o interesse dela e deixe o desenho crescer por todo esse caminho, do que ela imagina ao que ela observa.

Para guardar: Crianças pequenas desenham principalmente de memória, e isso é saudável: acolha os desenhos imaginativos e ofereça a observação só como um convite leve e divertido.

CDC, Developmental Milestones

UNICEF, Learning through play